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“Os livros talvez não alterem nosso sofrimento, talvez não nos protejam do mal, talvez não nos digam o que é bom ou é belo, e, certamente, não nos resguardam do fado comum da sepultura. Mas livros nos dão a possibilidade de tais coisas” – Alberto Manguel

Testando setembro 24, 2014

Filed under: literatura contemporânea — Bruna Guerra @ 2:37 pm

Estou fazendo um teste.

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O mundo cíclico de João Gilberto Noll agosto 26, 2008

Filed under: literatura contemporânea — rafaelcosta @ 5:59 pm

 

 

No mundo do melhor ficcionista da literatura brasileira contemporânea, a história é o que menos importa. Vale tudo: homem com vagina, escravos por prazer, pais de família com homossexualidade reprimida, sexo com animais.

 

                                                                            

O mais novo romance (, publicado em julho pela Record) do escritor gaúcho João Gilberto Noll, Acenos e Afagos, dá seqüência ao questionamento dos limites da linguagem da prosa-ficcional, levado a cabo pelo autor desde a década de 1980. O texto marca, também, um retorno do ficcionista às narrativas mais longas, depois da publicação dos contos de A máquina de ser (2006).

Em Acenos…, Noll retoma o esquema que configura a singularidade da sua prosa na ficção brasileira contemporânea: a criação de um ambiente ficcional construído muito mais por uma atenção à sonoridade e à apresentação de imagens, do que pela enunciação de episódios. O romance é, ainda, a biografia do mesmo narrador-anônimo, presente nas outras obras do autor; a história de um personagem errante que transita de um livro para outro, posto que é sempre um nômade a procura de um lugar identitário, um abrigo qualquer, um afago, ainda que provisório. Relato biográfico que, aqui, inicia-se com uma insólita luta homoerótica, ocorrida na infância do protagonista, entre ele e um amigo, num “chão frio do corredor” (p.7) de um consultório odontológico. Esse contato com o corpo do outro marca-o irreversivelmente, de tal forma que o colega se torna uma obsessão que acompanha o narrador durante toda a sua existência. Da cena inicial, a narrativa desloca-se para o tempo da vida adulta, quando o narrador já se encontra casado, com um filho adolescente, e, todavia, continua a desejar o afeto e o sexo do amigo, agora engenheiro formado. Na tentativa de superar a angústia dessa espera sistêmica pelo outro, o protagonista desloca-se pelo “incógnito da cidade” (p.29)  à procura de sexo, mesmo que não consiga ir além da efemeridade de uma ejaculação. Sua busca contínua por qualquer ser que lhe ofereça um agrado, um afago ou pelo menos um aceno afetuoso resulta de uma “fome impossível” (p.21), que ele tenta saciar por meio do sexo, seja com a esposa, com garotos de programa, com uma vizinha idosa e até mesmo com uma cabra – todos esses corpos surgem como alternativas precárias à ausência do afeto do engenheiro.

Nesse percurso dramático, a vida do protagonista converte-se numa espécie de “teatro latente” (p.19), no qual o narrador tem que fingir uma heterossexualidade inútil e ocultar seu desejo quase clandestino. Nesse sentido, é interessante observar as construções imagéticas, quase sempre binárias, que tomam conta da enunciação, a partir desse momento: a clandestinidade de uma homossexualidade reprimida é significada por meio de imagens que exploram o escuro, o noturno, o claustrofóbico sub-mundo dos dark rooms e se opõe ao claro, à “ordem diurna que então [o] oprimia” (p.16). O protagonista é, pois, um

 

[d]aqueles [homens] que na claridade do dia eram vistos como machos integrais, noivos até, acima de qualquer suspeitas. Mas nas horas submersas iam lá provar do pote ansiado. (..) Essas milícias noturnas (…) depois do serviço se metiam em buracos. Dirigiam-se a locais debaixo de pontes, ruelas úmidas sem saída, esgotos habitados por ratazanas ou homens com desejos inexprimíveis e muitos hotéis de orgias lacerantes. Aventuravam-se pelas madrugadas sempre no intuito de explorarem um o corpo do outro. (grifos meus) (NOLL, 2008, p.23, 25).

 

Essa biografia, marcada por uma contínua teatralização, é descrita por meio de uma linguagem litúrgica, típica do autor, na qual cada movimento dos personagens parece desenhar um ritual macabro, que resulta na diluição das perspectivas de gozo do protagonista. A partir desse personagem que esboça uma encenação de uma vida pacata e familiar – ao mesmo tempo em que vaga por Porto Alegre faminto, porém “[s]e fingindo de saciado” (p.21) –, J. Gilberto Noll compõe uma narrativa que desestabiliza os axiomas da representação realista; os limites entre fato e imaginação, ou entre realidade e ficção são frequentemente rasurados: “a ficção das coisas me enredava a ponto de não poder dela me desvencilhar. E o que restava do que chamavam de realidade se asilava no consulado de todas as bandeiras” (p.54).  Não por acaso, aqui, como em outros livros de Noll, para desfrutar da qualidade da prosa, o leitor tem que aceitar os jogos de um enredo conscientemente inverossímil. Auto-consciência ficcional que, para falar com Linda Hutcheon, caracteriza uma “metaficção”[1]

 

 

 

 

No espelho, você se vê como  realmente é: um ser avulso, que precisa urgentemente se ligar a outro, mesmo que esse amante tenha só a  duração exata de uma trepada.”

 

 

 

A materialidade desse discurso metaficcional pode ser observada, em Acenos…, por meio da ausência de conectividade entre um episódio e outro, isto é, nem sempre os eventos ocorrem pela relação causa-conseqüência, como se o enredo padecesse de certa crise de continuidade. Fragmentação que se verifica também no plano lingüístico: o autor dispensa o uso de conectores e, raramente, constrói orações subordinadas. Dessa sorte, temos um esquema lingüístico-literário fluido, que espelha a própria condição errante do protagonista e a precariedade dos seus efêmeros contatos sexuais.

Por sobreviver nesse regime ficcional onde os ordenadores lógicos praticamente inexistem, o narrador é amiúde surpreendido pelos acontecimentos. Quando finalmente o amigo decide assumir a sua homossexualidade, o que o credenciaria a uma relação amorosa com o protagonista, surge na cidade um anacrônico submarino alemão, por meio do qual o engenheiro irá abandoná-lo subitamente:

 

“Parei no cais, boquiaberto. O meu amigo engenheiro, a meu lado, me apresentava aquele brinquedo de tamanho natural(…) falou que seguiria viagem. Torci para que voltasse a me olhar nos olhos. Em vão. O meu amigo disse que ele continuaria no cruzeiro pelos interiores dos mares. Que não tinha nada melhor a fazer” (NOLL, 2008, p.19, 29).

 

Diante desse abandono acachapante, ao narrador só resta continuar sua peregrinação: ele, então, foge para sua fazenda, mas ali também não encontra refúgio, pois até a cabra que costumava lhe servir de parceira sexual na adolescência, agora, não lhe oferecia um afago. Num humorismo auto-depreciativo, o narrador conclui: “Em pouco tempo tinham sido duas rejeições, a do engenheiro e a da cabra” (p.31). De volta a Porto Alegre, após novas tentativas frustradas de retomar a vida em família, ele se envolve com um garoto de programa que, depois de dopá-lo o espanca até a morte. Se já tínhamos uma narrativa descaradamente descompromissada com a verossimilhança, acontece nesse momento um fenômeno que rompe de vez com a naturalidade das coisas: regressado, sabe-se lá de onde, o engenheiro reaparece justamente no cemitério onde o corpo do protagonista fora sepultado e o ressuscita – “Ainda existia alguma margem para milagres?” (p.89), pergunta o narrador incerto de sua própria ressurreição. Novamente, surpreendido pelos fatos, o narrador (ressuscitado?) sê vê, no interior do Mato Grosso, onde habita numa casa perdida no meio do nada, juntamente com o engenheiro. Ele espera, então, conseguir, depois de tanto aguardo, o afeto do amigo. Para tanto, ele tem de, nessa nova etapa, assumir um corpo feminino e atuar como uma esposa do engenheiro. O dramático é que, novamente, o narrador está sem alternativa: como não lhe permitiram nem mesmo o direito à morte, a nova vida também irá se iniciar como uma condenação: “Esqueceria-me também de meu filho, minha mulher e tudo o mais. Para essa realidade eu tinha morrido, sim. Estava condenado a viver dali para a frente no Mato Grosso. Ao lado do engenheiro” (p. 89). No entanto, embora esteja disposto a aceitar sua condição de esposa e seu corpo feminino, que começa a se formar, o protagonista se depara com mais um fenômeno insólito: ironicamente, o engenheiro “andava impotente” (p.91) e o narrador tem que atuar como o homem no sexo. Ou seja, sua identidade feminina é duplamente questionada: seja pelas memórias da primeira vida como homem, seja pelas relações sexuais noturnas com o engenheiro: “Mas quem era eu afinal? Um homem que funcionaria como esposa dentro de casa. Um cara fodão à noite, varando o engenheiro até o seu caroço.” (p.95). Para piorar, o marido abandona misteriosamente a casa para ir trabalhar sabe-se lá onde, obrigando-o a “encarar a solidão diurna da mulher” (p.93) – ausências que, com o tempo, passam a ocupar intervalos maiores, dias, semanas, meses, até. É belo o modo como o autor corporifica esse abandono, como se a carência dos personagem se diluísse pelo cenário: “A falta de pratos, talheres, mantimentos, na casa da selva, tomava dimensões diáfanas. Parecia flutuante. Era em si mesma uma existência autônoma, como suas dimensões e fronteiras invisíveis” (p.170).

O protagonista suspeita que o trabalho do engenheiro esteja relacionado ao tráfico internacional de droga, pois, subitamente, surgem guerrilheiros ao redor da casa. Numa das cenas mais angustiantes e improváveis do livro, o narrador vê seu filho adolescente sob a forma de um cachorro-do-mato, fazendo sexo oral em um dos seguranças. Visão essa que nada mais é do que uma reminiscência latente da primeira vida: “ A devoção à imagem do meu guri tinha tal potência que seu espectro poderia mesmo ter vingado aqui na floresta” (p.151).

Pouco tempo depois, o guarda-costas que ele vira com o seu filho, mostra-se um assassino: envenena o engenheiro, mata o filho (agora convertido em lobo) e  inclusive o próprio narrador. Nessa medida, as últimas páginas são tomadas por uma descrição, ao mesmo tempo, lúcida e angustiante dos últimos instantes de fôlego, como se o exercício de narrar estivesse diretamente relacionado com a continuidade do viver. Vale lembrar que não estamos diante de um Brás Cubas, isto é, de um enunciador que “do outro mundo” produz um discurso memorialístico sobre o que aconteceu; embora opte pelo pretérito do indicativo, o narrador de Noll nos fala sempre como se o enunciado estivesse acontecendo: “percebia com clareza cristalina não existir vida para além da biografia” (p.201). Ou seja: a enunciação (o relato biográfico) só acaba quando se extingue o enunciado (a vida).  

Ou, simplesmente, não acaba – uma vez que viver e morrer, na obra de João Gilberto Noll, não constituem pólos que se excluem. Isso porque o autor elabora uma trama onde é recorrente a imagética do cíclico: o engenheiro que abandona e retorna a casa e abandona de novo, a identidade que se forma e se desfaz, o corpo que é sepultado e renasce. Não por acaso, ao se dar conta da sua segunda morte, o narrador conclui: “percebi que, agora, enfim…, eu começaria a viver…” (p.206). Numa literatura inquietante e repleta de intra-textualiadades, como é a de J. G. Noll, não será de se estranhar se esse mesmo personagem renascer numa próxima narrativa.

         

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

          Hutcheon, Linda. Poética do pós-modernismo. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

          Noll, João Gilberto. Acenos e afagos. Rio de Janeiro: Record, 2008.

 

 


[1]Hutcheon, Linda (1991, p..141-62)

 

 

Milton, Mito e Mário julho 11, 2008

Filed under: literatura contemporânea,Poesia Brasileira — rafaelcosta @ 12:02 am

 

 

 

Alguém já disse que todo autor escreve sempre o mesmo romance durante toda a sua vida, ainda que o publique com vários títulos. A escrita teria, assim, qualquer coisa de re-escrita, de retorno aos mesmos temas. Aceitemos ou não a regra geral, o escritor amazonense Milton Hatoum não parece ser uma exceção: sua última novela, Órfãos do Eldorado (recém lançada pela Cia. Das Letras), retoma motivos ficcionais presentes em  Relato de um certo Oriente, Dois Irmãos e Cinzas do Norte: a família-impossível, a orfandade, a incomunicabilidade, a experiência ambígua da memória. 

 

Se nas três obras anteriores Milton Hatoum já explorava os aspectos culturais da região Norte, em Órfãos do Eldorado, o autor elabora um material ficcional no qual o cenário, ou melhor, a semântica simbólica desse cenário é, por assim dizer, o principal esquema de estruturação da narrativa. Hatoum consegue um feito: sua novela está longe de ser provinciana, regional-ista; ao contrário, há, na obra, um efeito que costumamos encontrar nos grandes livros: o movimento do particular pro universal. E essa transição do individual para o coletivo se realiza por meio do mito.

 

A história é narrada por Arminto Cordovil que, às margens do rio Amazonas, relata a um viajante a trajetória de sua própria vida, que começa marcada pela morte: “Até hoje recordo as palavras que me destruíram: Tua mãe te pariu e morreu”. Criado pelo pai, que parece lhe culpar pela morte da esposa, ele mais parece um bastardo do que um filho legítimo; é, pois, duplamente órfão. Quando herda as propriedades e a empresa do pai, Amando Cordovil, grande capitalista que fez fortuna durante o Ciclo da Borracha, Arminto se mostra sem capacidade e sem disposição para administrar a herança, o que o conduz do luxo à pobreza. Seu amor por uma índia-orfã, Dinaura, não só não se concretiza como o faz delirar; aos poucos, o sonho se torna uma espécie de obsessão: “passava o dia fugindo dessas coisas irreais, absurdas, mas que pareciam tão vivas que me davam medo”. Arminto, então, começa a desejar ir para outro lugar, para um Paraíso: “Vou embora para outra terra, encontrar uma cidade melhor. Para onde olho, qualquer lugar que o olhar alcança, só vejo miséria e ruínas”.

 

Interessa-me, aqui, esse desejo, a crença de que há outro lugar, uma cidade encantada, o Eldorado, no qual se pode viver sem “miséria e ruínas”. É por meio dessa esperança mítica que a novela projeta-se como narrativa universal. O Eldorado de que nos fala Hatoum é, portanto, muito mais uma sedução coletiva do que uma lenda amazônica. Não por acaso, num posfácio, um tanto quanto ambíguo e borgiano, o autor(?) comenta: “percebi que o mito do Eldorado era uma das versões ou variações possíveis da Cidade Encantada, que, na Amazônia, é referida também como uma lenda. Mitos que fazem   parte da cultura indo-européia, mas também da ameríndia e de muitas outras. Porque os mitos, assim como as culturas, viajam e estão entrelaçados. Pertencem à História e à memória coletiva” (itálico do autor; subl. meu). Essa relação do mito com a História (com H maiúsculo) sugere uma indefinição entre fato e ficção. Indefinição que poderia chamar, para falar com L. Hutcheon, de metaficção historiográfica, isto é,  uma novela  que problematiza a História e a ficção como criações humanas – não cabem, portanto, os critérios de verdadeiro ou falso. Isso significa que a lenda não é assumida como uma narrativa mentirosa; o que difere, por exemplo, os retirantes que migram em busca de outra vida, e a índia que se atira no fundo do rio, a fim de encontrar o Eldorado? Não se trata, porém, de percorrer o caminho inverso e idealizar o mito, como uma narrativa verdadeira. Juntamente com o mito, a novela apresenta o anti-mito, isto é, a ruína e o abandono: “E silêncio. Aquele lugar tão bonito, o Eldorado, era habitado pela solidão”. Num dos trechos mais belos da novela, a esperança no Paraíso é desconstruída:

“Porque, se fores embora, não vais encontrar outra cidade para viver. Mesmo se encontrares, a tua cidade vai atrás de ti. Vais perambular pelas mesmas ruas até voltares para cá. Tua vida foi desperdiçada neste canto do mundo. E agora é tarde demais, nenhum barco vai te levar para outro lugar. Não há outro lugar”.    

 

Desfazem-se, portanto, os abrigos que a narrativa mítica pode oferecer; o mito é universal, mas o sofrimento é individual – ainda que possa ocorrer em escala social. Em Crime e Castigo, um bêbado afirma que a diferença entre a pobreza e a miséria é que na primeira sempre se tem um lugar para ir, na segunda, não – e todo homem, por mais pobre que seja, sempre precisa de algum lugar para ir. A novela de Hatoum figura, nessa medida, como o relato de um miserável: quando não há para onde fugir, pode ser que já seja tarde para buscar a fuga.

 

Mário de Andrade (?)

Em determinado ponto da trama, encontramos uma referência a uma visita que um escritor paulista teria feito ao Amazonas, em 1927: “Uns anos depois, quando quatro turistas paulistas passaram por Vila Bela, ganhei um dinheirinho. Três mulheres e um homem. Escritor. (…) O escritor puxava conversa com todo mundo: índios, caboclos, artesãos e compositores de toadas.” .Referência à viagem que Mário de Andrade fez ao estado. Claro, não convém acreditar que o escritor viajante é Mário, mas a referência ali está, justamente, para lembrar ao leitor que lendas não são necessariamente não-Históricas, ou que a História é, também, ficção, como disse acima.  

 

Ainda em tempo: interessante observar – e fica a observação como uma provocação para uma pesquisa futura – que, no modernismo de Mário ainda havia um “para onde ir”. A crença no mito da nacionalidade sinalizava um Eldorado. Norte e Sudeste são para o poetas amalgamados pelo nacional

 

Descobrimento[1]

 

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves

De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
Muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu!    

 

Essa alegoria do nacional com a força de um mito acreditável também aparece plasmada no seu “O Poeta come amendoim”, por meio do olhar atemporal e imemorial da voz poética: “Estou pensando nos tempos de antes de eu nascer…”. Um Brasil que no, sonho do poeta, é quase uma Cidade Ecantada: “Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada,/porque é o meu sentimento pachorrento,/ porque é o meu jeito de ganhar dinheiro,/ de comer e de dormir”[2].



[1] ANDRADE, Mário de. Poesias completas. Belo Horizonte: Villa Rica, 1993, p.203.

 

[2] Idem, p.65

 

 

Roberto Bolaño julho 8, 2008

Filed under: literatura contemporânea — Bruna Guerra @ 11:37 pm

Para ser metalingüísta
Quando esse TodoTexto foi inaugurado, fiquei matutando sobre com o que começaria o meu “bloco”. Alguns sugeriram que eu postasse um artigo que escrevi (do qual discordo um pouco atualmente), mas achei que nenhum leitor de blogs (público contemporâneo e imediatista) teria paciência de ler o equivalente a dez páginas de um trabalho acadêmico, repleto de citações e notas de rodapé. Ok. Depois de tantos rodeios, devo finalmente dizer: eu estudo a obra de Roberto Bolaño, e o artigo que citei é sobre ele.

 

Roberto Bolaño
Roberto Bolaño não dispensa apresentações. Ele não tem um nome ressoante como do nosso Machado de Assis, nem como do hermano Borges. Quando cito o nome de Roberto Bolaño quase sempre perguntam quem ele é, ou então me olham com um sorriso maroto e dizem, como que acertando-na-mosca: “Ahhh! É o Chaves!”. Roberto Bolaño, felizmente, não é Roberto Gómez Bolaños, não que eu não goste do nostálgico Chaves -de fato gosto-, mas em termos intelectuais, fico com o primeiro nome. Sem uma fortuna crítica digna de um Drummond de Andrade, sua apresentação é necessária antes que eu comece a afogar o blog com coisas sobre ele. Sucintamente: chileno de nascimento, juventude no México, fuga da prisão após o golpe militar de Pinochet, viagens pelo mundo, fim da vida na Espanha. Tudo bem descrito em seu Los Detectives Salvajes. Mas, calma… Você pode vir me dizer: romance é romance, biografia é biografia, mas…

Por mais que eu tente fugir de biografismos, “contra fatos não há argumentos”: lá está a vida de Bolaño em seu Rómulo Gallego Los Detectives Salvajes (e outras obras). Já diria a pop Análise do Discurso que as condições de produção proporcionam isso, mas bem mais que invocar Enis Orlandis, Pechêuxs,  Mainguenaus e o camarada Freud com sua psicanálise, acredito que Bolaño participe de um fenômeno literário latino-americano contemporâneo chamado hibridismo, muito bem trabalhado em um texto de de Rafael GIRALDO¹.
Eis que páro por aqui, meio abruptamente, para não esgotar os senhores nem o assunto.

E se você ficou curioso e pretende conhecer a obra de Roberto Bolaño, alguns dos seus livros já têm tradução brasileira pela Companhia das Letras.

Os Detetives Selvagens Noturno no Chile 

A Pista de Gelo Putas Assassinas

___________________________________________________________________

¹) GIRALDO, Rafael E. G. Romances híbridos e crítica ficcional na narrativa contemporânea latino-americana: o caso de Roberto Bolaño. Gragoatá. Niterói, n.22, p.179-190, 1.sem.2007.

 

Quando saber ler é saber falar sobre livros julho 1, 2008

Filed under: crítica contemporânea,literatura contemporânea — rafaelcosta @ 10:48 pm

 

Em seu Por que ler os Clássicos, Italo Calvino afirma que “os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: ‘estou relendo’… e nunca ‘estou lendo’ “. Venhamos e convenhamos, nem sempre somos honestos o suficiente para admitirmos que sequer vimos pela frente um exemplar de Finnegans Wake,  de Em busca do tempo perdido, ou dOs Lusíadas. No entanto, Joyce, Proust e Camões estão sempre por aí, numa epígrafe de um ensaio, nas conversas nos corredores da faculdade, servindo de exemplo para determinado procedimento literário… os livros que não lemos aparecem até mesmo quando nos pedem uma sugestão de leitura.

Por vezes, diante de um “e aí, o que vocês acharam do Decameron ?”, ficamos na defensiva: se algum dos interlocutores se arriscar, vamos com ele e “concordamos plenamente com suas palavras”; mas se sou eu o único – e desafortunado – entrevistado, oscilo entre a mentira-descarada “é uma obra excelente, muito bem construída”, a mentira-envergonhada “faz tanto tempo que eu li, que já não lembro muito bem” e a verdade-cabisbaixa “ainda não li”, mas enfatizo o advérbio.

Italo Calvino nos lembra também de que é quase impossível ler inocentemente uma obra clássica: antes mesmo da primeira leitura, já conhecemos um volume de informações e comentários feito a seu respeito – sabemos, sobretudo, se devemos ou não gostar dele. Não esqueço um caso de uma amiga indignada que veio me contar que seu pai, que “lia de tudo”, “estragara” o final de Grande Sertão: veredas,  contando-lhe que Diadorim era mulher e  morria no fim. Por causa dessa facilidade -estou pensando em ambientes onde sejam freqüentes práticas de letramento – de acesso a esses discursos metalingüísticos sobre os clássicos, talvez seja menos constrangedor não ter lido Hamlet, do que não ter o que falar sobre ele, ou mesmo não saber que o ceticismo de “há algo de pode no Estado da Dinamarca” foi formulado por um dos oficiais amigos do príncipe.

No entanto, é um equívoco pensar que a Metalinguagem é um discurso que tem os autores canônicos como tópica preferencial. O recente sucesso dO Código Da Vinci, seguido do aparecimento de inúmeros best-sellers que ofereciam para-interpretações sobre ele – Revelando o Código Da Vinci, Decodificando o Código Da Vinci, Quebrando o Código da Vinci, … ad infinitum –   devem querer nos dizer algumas coisas. Arrisco algumas considerações: (1) também o leitor leigo produz uma demanda pela Metalinguagem, justamente porque a Leitura – seja ela ocasional, leiga ou acadêmica – e a não-leitura de um livro compreendem o processo de falar sobre o que se leu.  (2) O fenômeno  O Código Da Vinci também foi responsável por uma busca por informações sobre ícones da alta-Cultura, como a mitologia cristã e o a própria figura de Leonardo Da Vinci. Os acadêmicos foram, então, convocados pelas editoras e pela mídia de massa para decifrar esse outro código, por serem “especialistas” na alta-Cultura.

Claro que essa busca pelos especialistas não é um fenômeno próprio do caso Dan Brown. Basta observarmos dois lançamentos do mercado editorial brasileiro. O primeiro dele, a coleção Folha Explica já está aí há algum tempo e a contínua expansão do catálogo, atesta seu sucesso. O segundo, acaba de chegar às livrarias: trata-se da coleção Por que ler, da Editora Globo, com roteiros de leitura sobre Borges, Shakespeare e Dante. Cada volume é composto por uma pequena biografia do autor, um ensaio e citações de suas obras.  Verdade seja dita, esses manuais não são novidade no mercado, é só lembrar do título do livro de Calvino, já citado aqui; além dele, os textos de Harold Bloom sobre Como e por que ler ( O Cânone Ocidental ) também têm sido bem recebido. Também não é de agora essa busca pela sabedoria dos iniciados: desde muito tempo, consultavam-se os doutores no Templo, responsáveis pela interpretação da Palavra de Deus. 

Contudo, creio que há uma diferença entre as duas coleções e os textos de Calvino, Bloom e a hermenêutica dos escribas. A diferença de que falo caracterizaria aquilo que alguns autores como Charles Jencks e Umberto Eco têm chamado de double coding, isto é, a apropriação de recursos  das culturas ex-cêntricas, da mídia de massa, para falar das simbologias da alta-Cultura. O que me parece digno de nota é que o conceito de double coding não se restringe à ficção pós-moderna. Há, aqui, um espelhamento nos procedimentos empregados pela ficçao e pela Metalinguagem contemporânea – aliás, essa semelhança entre a literatura e  crítica literária já foi apontada por L. Hutcheon em seu estudo sobre a paródia pós-moderna (Poética do pós-modernismo).  Os “especialistas” , agora, recebem uma encomenda de uma empresa editorial para produzirem um objeto-cultural, destinado a atingir um público-alvo, não-especializado. Guardadas as devidas diferenças de veículo/público, é mais ou menos o mesmo movimento que levou a filósofa Viviane Mosé a buscar a linguagem dos recursos gráficos para falar de filosofia na TV

Isso não significa que essas coleções descomplicadoras sejam meros esquemas para resolver a vida de quem não quer ler. Ao contrário: diante da erudição despretensiosa de uma Bárbara Heliodora avoluma-se a angústia de saber que por mais que se leia, quase tudo vai ficar por ser lido.

 

 
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