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“Os livros talvez não alterem nosso sofrimento, talvez não nos protejam do mal, talvez não nos digam o que é bom ou é belo, e, certamente, não nos resguardam do fado comum da sepultura. Mas livros nos dão a possibilidade de tais coisas” – Alberto Manguel

Vocês não entendem nada Outubro 6, 2008

Arquivado em: Intercâmbios — rafaelcosta @ 7:22 pm
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Caetano: aplausos (com medo) para “Alegria alegria”, em 1967,

vaias, bolas de papéis e pedaços de madeira para “É proibido proibir”, em 68.

(foto: Jornal do Brasil) 

 

Em setembro, fez quarenta anos de uma das vaias mais produtivas da história desse país: a  que o Caetano levou no Festival Internacional da Canção (FIC), no auditório da PUC-RJ, em 1968, quando cantou “É proibido proibir“. A história da música é linda. O Caetano viu uma fotografia de uma parede pinchada nos protestos do maio parisiense, com o paradoxo: “Il est interdit d’interdire”. Ficou com a frase na cabeça e quando o Guilherme Araújo ficou sabendo disso, obrigou-o a fazer uma canção com a frase. Foi o Guilherme também que insistiu com o Caetano para ele entrar no FIC daquele ano e inscrever a música. “É proibido proibir” chegou às semi-finais. O Caê resolveu, então, tocar a música com os Mutantes: o Rogério Drupat fez arranjos eletrônicos e esquisitíssimos, que mais pareciam gritos desesperados – nada mais apropriado à idéia da música. Assim que entrou no palco, o Caetano já começou a ser vaiado de costas; o pessoal dos Mutantes não deixou por menos: viraram e começaram a tocar também de costas pra platéia. O Caetano ignorou e começou a cantar sua melodia ternária:

 

A mãe da virgem diz que não

E o anúncio da televisão

E estava escrito no portão

E o maestro ergueu o dedo

E além da porta,

há o porteiro, sim…

 

E eu digo não,

Eu digo não ao não…

 

A platéia virou pro palco e começou a tacar papel, papelão, pedaços de madeira no Caetano, que exaltado produziu um dos sermões mais perfeitos que eu já vi e que é um resumo de toda a patética juventude daquele tempo – época, aliás, que muitos idiotinhas de plantão gostam de proclamar como o tempo da juventude-inteligente-engajada; que nada… eram uns grandíssimos imbecis, que pregavam liberdade, mas eram censores artisticamente analfabetos- divago: volto à reação do Caetano, que basta:

 

Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudir esse ano uma música, um tipo de música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado… São a mesma juventude e vão sempre, sempre matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem. Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada. Vocês estão por fora. Vocês não vão vencer. Mas que juventude é essa? Vocês são iguais sabem a quem? Àqueles que foram no Roda Viva e espancaram os atores… Vocês não diferem em nada deles. Estão querendo policiar a música brasileira. Gilberto Gil está aqui comigo pra gente acabar com toda a imbecilidade que reina no Brasil.

 

E pra arrematar, a frase que deveria ser emoldurada:

 

Se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Essas paixões. Agosto 23, 2008

Arquivado em: Intercâmbios — estherms @ 2:55 pm
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Liv Ullman em Shame (1968)

 

 

           Existe algo de deprimente em se apaixonar por uma estrela de cinema. Talvez seja a maior afirmação de solidão possível: no final das contas, é necessário desejar o que está longe e que jamais será alcançado. É, enfim, a discreta declaração da incapacidade perante o real. Há anos me apaixonei pela Liv Ullman, mas não se trata de nada disso.

 

            Ingmar Bergman sempre guardou especial afeição pelo teatro. Antes de se enveredar para o cinema havia trabalhado em algumas companhias suecas e ao longo de toda a vida foi responsável por mais de 170 direções cênicas, especialmente dos dramas de Ibsen e Strindberg. Para mim não há discussão: Bergman é, de longe, o maior nome de toda a história cinematográfica. E seus méritos nas telas residem justamente em sua dedicação aos palcos.

 

            Quando do início da carreira bergmaniana no cinema, nos anos 40, as discussões que encaravam a nova arte visual como um aperfeiçoamento do teatro já se mostravam fora de moda. Tanto a crítica como os realizadores já haviam compreendido que os dois campos constituíam-se como domínios distintos e não-concorrentes. A uma parte do público, entretanto, a consideração do cinema como a evolução do teatro persistia. Bergman foi engenhoso o suficiente para saber jogar com essas fronteiras.

 

            O teatro, em sua generalidade[1], se constitui como o espaço da anulação da figura do espectador. A ação se desenrola em um palco a vários metros de distância. Os atores estão longe, isolados e resguardados em suas angústias. Bergman, estando no cinema, arrancou à força a privacidade do intérprete: seus close-ups são impossivelmente próximos, tomam o espectador pela mão e o colocam cara-a-cara com o ator. O diretor empreende um assalto, uma invasão da intimidade, carregando o espectador como seu maior parceiro.

 

         Foi graças ao estupro de suas lentes que conheci Liv, a dona do rosto mais devastador desse mundo. Em uma obra bergmaniana, os sorrisos e as tristezas das personagens não precisam se impor através de grandes gestos ou exageros. É tudo mínimo demais, pequeno demais. Por isso mesmo tudo dói demais. Os próprios atores bergmanianos são, em uma certa medida, intérpretes conscientes de suas atuações. Mas não se tratam de interpretações dissimuladas ou brechtianas, sim de indivíduos expostos ao extremo pelo engenho de um olhar que sabe lidar com as especificidades cinematográficas.

 

         E, um dia, enquanto via Persona (1966), me apaixonei pela Liv Ullman. Simplesmente. Não havia como não desejar aquela humanidade arrebatadora que estava tão perto, tão possível.

 

 


 

[1] Aos rígidos: não estou considerando nem o teatro de Brecht e nem o da Crueldade, de Artaud.