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“Os livros talvez não alterem nosso sofrimento, talvez não nos protejam do mal, talvez não nos digam o que é bom ou é belo, e, certamente, não nos resguardam do fado comum da sepultura. Mas livros nos dão a possibilidade de tais coisas” – Alberto Manguel

O poeta e a memória de seu tempo Julho 7, 2008

Arquivado em: Poesia Brasileira, crítica contemporânea — Tati Marchi @ 8:05 am

Carlos Drummond de Andrade

Buscarei neste breve ensaio tecer algumas considerações sobre uma possível chave interpretativa para parte da poesia de Drummond, na qual esta é vista como uma literatura da memória. Apesar de saber que tal tarefa pode soar como uma interpretação “paranóica”,  faço-a me sentindo respaldada pela defesa da superinterpretação feita por Jonathan Culler1, sobretudo quando o teórico afirma: “a produção de interpretações de obras literárias não deveria ser considerada como o objetivo supremo, e muito menos o único objetivo, dos estudos literários, mas, se é para os críticos gastarem seu tempo elaborando e propondo interpretações, então devem aplicar a maior pressão interpretativa possível, devem levar o seu pensamento o mais longe possível”. (Culler, 1993: 130) Com isso, quero dizer que a leitura da poesia drummondiana proposta aqui é fruto de uma impressão pessoal acerca de um aspecto de sua estética e que, portanto, se sustenta na tentativa de esclarecer as associações que podem fazer desta chave interpretativa aceitável.

Sendo assim, especularei sobre o tom, em certa medida, testemunhal presente na poesia de Drummond, focalizando os livros Sentimento do Mundo (1940), José (1945) e A Rosa do Povo (1945). A escolha destas três obras é fundamentada em três motivos principais e que se perpassam:

  1. Há neste período da obra de Drummond uma espécie de dualidade temática: ao mesmo tempo em que existe a preocupação com o social há a luta com os problemas individuais, resultando no questionamento sobre a necessidade da literatura (e da poesia) na modernidade.

  2. A temática do tempo e com ela a da função da memória na constituição humana são temas recorrentes.

  3. Tantos nos poemas de caráter mais social quanto nos voltados para o indivíduo, há um tom de denúncia contra os males que afligem o homem moderno.

Não por acaso, essas são as principais características da chamada literatura de testemunho – tida por muitos teóricos contemporâneos como representante do gênero literário por excelência do século XX. Amplas são as discussões a respeito da contribuição do trabalho com a memória para a literatura moderna. Para o desenvolvimento argumentativo do presente estudo seguirei a linha teórica que considera a memória como a musa de todas as artes: “ Para que possam criar, para que possam exercer o simples ato de pensar, todos os seres humanos necessitam de uma ferramenta ou máquina mental e essa ‘máquina’ existe nas intrincadas redes de suas próprias memórias.” (Caruthers, 2006)2 Ainda que esta afirmativa seja bastante genérica e, portanto, não esclareça nenhuma particularidade literária, ela se faz necessária, pois somente aceitando-a podemos partir para a uma investigação mais detalhada da memória em qualquer autor. Dessa forma, entendo a literatura memorialística de cunho testemunhal como aquela que se propõe a, através da utilização de uma memória coletiva e social, levantar questões ou denunciar os horrores de seu tempo dentro de um determinado contexto ideológico-histórico-cultural.

É exatamente desta forma que encaro a construção poética de Drummond no período de 1940 à 1945. Recorrendo as palavras de Afrânio Coutinho: “Sua luta com as palavras seria uma luta pela expressão, mas que fosse a expressão testemunha da dor do mundo. O mundo moderno, com o seu mecanismo, seu materialismo, sua falta de humanidade, seu desprezo pelo homem (…)” (Coutinho, 1977:10)3 Sendo assim, a literatura drummondiana se insere no campo da literatura de memória testemunhal – entendida aqui, como já dito anteriormente, como a expressão do autor diante dos fatos do mundo ao seu redor.

A preocupação em cantar o seu tempo pode ser exemplificada com um verso do poema “Mãos dadas”, do livro Sentimento do Mundo: “O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.”4 Em “Canção do Berço”, outro poema do mesmo livro, o poeta faz uma espécie de premonição de um futuro catastrófico e desumano resultado das ações do homem presente; essa premonição é destinada a uma garotinha, no sentido de alertá-la sofre a realidade triste e dura do mundo em que ela acabou de chegar. A última estrofe ilustra bem isso: “Os beijos não são importantes./ No teu tempo nem haverá beijos./ Os lábios serão metálicos,/ civil, e mais nada, será o amor/ dos indivíduos perdidos na massa/ e só uma estrela/ guardará o reflexo do mundo esvaído/ (aliás sem importância.)”

Nessa mesma perspectiva, podemos perceber o tom de denúncia no poema “Visão 1944” , que compõe o livro A Rosa do Povo, aqui o poeta inicia todas as 25 estrofes com a sentença “Meus olhos são pequenos para ver” e, então, fala de seu inconformismo diante dos desastres de seu tempo, sobretudo, a 2ª Guerra Mundial (referida também em outros poemas dessa mesma obra, como “Carta a Stalingrado” e “Telegrama de Moscou”).

Outro aspecto recorrente na poesia de Drummond, percebida nas obras de sua fase mais engajada, se refere à recorrência do tema da memória. O vasculhar das reminiscências (entendidas aqui não somente como a referência aos dados biográficos do autor, mas como as construídas a partir do ideário de uma época) pode ser lido como uma busca da reconstrução de si mesmo, é a partir das memórias que os homens constroem sua identificação particular, aquilo que distingue cada pessoa e marca sua efêmera existência na Terra. No poema “Resíduo” , de A Rosa do Povo, há um trecho que sintetiza a hipótese interpretativa apresentada acima: “Se de tudo fica um pouco,/ mas por que não ficaria/um pouco de mim? no trem/que leva ao norte, no barco,/nos anúncios de jornal,/um pouco de mim em Londres,/um pouco de mim algures?/na consoante?/no poço?”

Apesar de curtas e bastante pontuais, me parece que as considerações sobre a poesia de memória testemunhal presente na obra de Carlos Drummond de Andrade nos mostram um poeta preocupado com os acontecimentos de seu tempo e com o impacto destes para as gerações futuras. Assim, o poeta fica perplexo diante das catástrofes e misérias do mundo, mergulhando nas redes da memória para tentar entender o presente e (re)construir a si próprio e aos outros como humanos, com sentimentos e ações próprios de sua espécie, vendo, assim, uma possibilidade de restaurar a dignidade humana em meio ao turbilhão da modernidade.

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1Faço referência ao artigo “Em defesa da superinterpretação”, de Jonathan Culler. In: ECO, Umberto. Interpretação e superinterpretação.; [tradução MF]. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

2CARUTHERS, Mary. Uma arte medieval para a invenção e para a memória: a importância do lugar” In:. REMATE DE MALES – Dossiê 26.1 “Literatura como uma arte da memória”. Campinas: Unicamp: Instituto de estudos da linguagem. Publicação semestral. ISSN: 103-183x

3Carlos Drummond de Andrade; coletânea organizada por Sônia Brayner, nota preliminar de Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, INL, 1977. (Coleção Fortuna Crítica, v.1).

4Todos os poemas de Carlos Drummond de Andrade transcritos aqui foram retirados de Obra Completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro, Aguilar, 1964.(8. ed. 1992, organizada pelo próprio autor, sob o título Poesia completa e prosa.)

 

Quando saber ler é saber falar sobre livros Julho 1, 2008

Arquivado em: crítica contemporânea, literatura contemporânea — rafaelcosta @ 10:48 pm

 

Em seu Por que ler os Clássicos, Italo Calvino afirma que “os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: ‘estou relendo’… e nunca ‘estou lendo’ “. Venhamos e convenhamos, nem sempre somos honestos o suficiente para admitirmos que sequer vimos pela frente um exemplar de Finnegans Wake,  de Em busca do tempo perdido, ou dOs Lusíadas. No entanto, Joyce, Proust e Camões estão sempre por aí, numa epígrafe de um ensaio, nas conversas nos corredores da faculdade, servindo de exemplo para determinado procedimento literário… os livros que não lemos aparecem até mesmo quando nos pedem uma sugestão de leitura.

Por vezes, diante de um “e aí, o que vocês acharam do Decameron ?”, ficamos na defensiva: se algum dos interlocutores se arriscar, vamos com ele e “concordamos plenamente com suas palavras”; mas se sou eu o único – e desafortunado – entrevistado, oscilo entre a mentira-descarada “é uma obra excelente, muito bem construída”, a mentira-envergonhada “faz tanto tempo que eu li, que já não lembro muito bem” e a verdade-cabisbaixa “ainda não li”, mas enfatizo o advérbio.

Italo Calvino nos lembra também de que é quase impossível ler inocentemente uma obra clássica: antes mesmo da primeira leitura, já conhecemos um volume de informações e comentários feito a seu respeito - sabemos, sobretudo, se devemos ou não gostar dele. Não esqueço um caso de uma amiga indignada que veio me contar que seu pai, que “lia de tudo”, “estragara” o final de Grande Sertão: veredas,  contando-lhe que Diadorim era mulher e  morria no fim. Por causa dessa facilidade -estou pensando em ambientes onde sejam freqüentes práticas de letramento - de acesso a esses discursos metalingüísticos sobre os clássicos, talvez seja menos constrangedor não ter lido Hamlet, do que não ter o que falar sobre ele, ou mesmo não saber que o ceticismo de “há algo de pode no Estado da Dinamarca” foi formulado por um dos oficiais amigos do príncipe.

No entanto, é um equívoco pensar que a Metalinguagem é um discurso que tem os autores canônicos como tópica preferencial. O recente sucesso dO Código Da Vinci, seguido do aparecimento de inúmeros best-sellers que ofereciam para-interpretações sobre ele - Revelando o Código Da Vinci, Decodificando o Código Da Vinci, Quebrando o Código da Vinci, … ad infinitum -   devem querer nos dizer algumas coisas. Arrisco algumas considerações: (1) também o leitor leigo produz uma demanda pela Metalinguagem, justamente porque a Leitura - seja ela ocasional, leiga ou acadêmica - e a não-leitura de um livro compreendem o processo de falar sobre o que se leu.  (2) O fenômeno  O Código Da Vinci também foi responsável por uma busca por informações sobre ícones da alta-Cultura, como a mitologia cristã e o a própria figura de Leonardo Da Vinci. Os acadêmicos foram, então, convocados pelas editoras e pela mídia de massa para decifrar esse outro código, por serem “especialistas” na alta-Cultura.

Claro que essa busca pelos especialistas não é um fenômeno próprio do caso Dan Brown. Basta observarmos dois lançamentos do mercado editorial brasileiro. O primeiro dele, a coleção Folha Explica já está aí há algum tempo e a contínua expansão do catálogo, atesta seu sucesso. O segundo, acaba de chegar às livrarias: trata-se da coleção Por que ler, da Editora Globo, com roteiros de leitura sobre Borges, Shakespeare e Dante. Cada volume é composto por uma pequena biografia do autor, um ensaio e citações de suas obras.  Verdade seja dita, esses manuais não são novidade no mercado, é só lembrar do título do livro de Calvino, já citado aqui; além dele, os textos de Harold Bloom sobre Como e por que ler ( O Cânone Ocidental ) também têm sido bem recebido. Também não é de agora essa busca pela sabedoria dos iniciados: desde muito tempo, consultavam-se os doutores no Templo, responsáveis pela interpretação da Palavra de Deus. 

Contudo, creio que há uma diferença entre as duas coleções e os textos de Calvino, Bloom e a hermenêutica dos escribas. A diferença de que falo caracterizaria aquilo que alguns autores como Charles Jencks e Umberto Eco têm chamado de double coding, isto é, a apropriação de recursos  das culturas ex-cêntricas, da mídia de massa, para falar das simbologias da alta-Cultura. O que me parece digno de nota é que o conceito de double coding não se restringe à ficção pós-moderna. Há, aqui, um espelhamento nos procedimentos empregados pela ficçao e pela Metalinguagem contemporânea - aliás, essa semelhança entre a literatura e  crítica literária já foi apontada por L. Hutcheon em seu estudo sobre a paródia pós-moderna (Poética do pós-modernismo).  Os ”especialistas” , agora, recebem uma encomenda de uma empresa editorial para produzirem um objeto-cultural, destinado a atingir um público-alvo, não-especializado. Guardadas as devidas diferenças de veículo/público, é mais ou menos o mesmo movimento que levou a filósofa Viviane Mosé a buscar a linguagem dos recursos gráficos para falar de filosofia na TV

Isso não significa que essas coleções descomplicadoras sejam meros esquemas para resolver a vida de quem não quer ler. Ao contrário: diante da erudição despretensiosa de uma Bárbara Heliodora avoluma-se a angústia de saber que por mais que se leia, quase tudo vai ficar por ser lido.