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“Os livros talvez não alterem nosso sofrimento, talvez não nos protejam do mal, talvez não nos digam o que é bom ou é belo, e, certamente, não nos resguardam do fado comum da sepultura. Mas livros nos dão a possibilidade de tais coisas” – Alberto Manguel

Essas paixões. Agosto 23, 2008

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Liv Ullman em Shame (1968)

 

 

           Existe algo de deprimente em se apaixonar por uma estrela de cinema. Talvez seja a maior afirmação de solidão possível: no final das contas, é necessário desejar o que está longe e que jamais será alcançado. É, enfim, a discreta declaração da incapacidade perante o real. Há anos me apaixonei pela Liv Ullman, mas não se trata de nada disso.

 

            Ingmar Bergman sempre guardou especial afeição pelo teatro. Antes de se enveredar para o cinema havia trabalhado em algumas companhias suecas e ao longo de toda a vida foi responsável por mais de 170 direções cênicas, especialmente dos dramas de Ibsen e Strindberg. Para mim não há discussão: Bergman é, de longe, o maior nome de toda a história cinematográfica. E seus méritos nas telas residem justamente em sua dedicação aos palcos.

 

            Quando do início da carreira bergmaniana no cinema, nos anos 40, as discussões que encaravam a nova arte visual como um aperfeiçoamento do teatro já se mostravam fora de moda. Tanto a crítica como os realizadores já haviam compreendido que os dois campos constituíam-se como domínios distintos e não-concorrentes. A uma parte do público, entretanto, a consideração do cinema como a evolução do teatro persistia. Bergman foi engenhoso o suficiente para saber jogar com essas fronteiras.

 

            O teatro, em sua generalidade[1], se constitui como o espaço da anulação da figura do espectador. A ação se desenrola em um palco a vários metros de distância. Os atores estão longe, isolados e resguardados em suas angústias. Bergman, estando no cinema, arrancou à força a privacidade do intérprete: seus close-ups são impossivelmente próximos, tomam o espectador pela mão e o colocam cara-a-cara com o ator. O diretor empreende um assalto, uma invasão da intimidade, carregando o espectador como seu maior parceiro.

 

         Foi graças ao estupro de suas lentes que conheci Liv, a dona do rosto mais devastador desse mundo. Em uma obra bergmaniana, os sorrisos e as tristezas das personagens não precisam se impor através de grandes gestos ou exageros. É tudo mínimo demais, pequeno demais. Por isso mesmo tudo dói demais. Os próprios atores bergmanianos são, em uma certa medida, intérpretes conscientes de suas atuações. Mas não se tratam de interpretações dissimuladas ou brechtianas, sim de indivíduos expostos ao extremo pelo engenho de um olhar que sabe lidar com as especificidades cinematográficas.

 

         E, um dia, enquanto via Persona (1966), me apaixonei pela Liv Ullman. Simplesmente. Não havia como não desejar aquela humanidade arrebatadora que estava tão perto, tão possível.

 

 


 

[1] Aos rígidos: não estou considerando nem o teatro de Brecht e nem o da Crueldade, de Artaud.