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“Os livros talvez não alterem nosso sofrimento, talvez não nos protejam do mal, talvez não nos digam o que é bom ou é belo, e, certamente, não nos resguardam do fado comum da sepultura. Mas livros nos dão a possibilidade de tais coisas” – Alberto Manguel

O mundo cíclico de João Gilberto Noll Agosto 26, 2008

Arquivado em: literatura contemporânea — rafaelcosta @ 5:59 pm

 

 

No mundo do melhor ficcionista da literatura brasileira contemporânea, a história é o que menos importa. Vale tudo: homem com vagina, escravos por prazer, pais de família com homossexualidade reprimida, sexo com animais.

 

                                                                            

O mais novo romance (, publicado em julho pela Record) do escritor gaúcho João Gilberto Noll, Acenos e Afagos, dá seqüência ao questionamento dos limites da linguagem da prosa-ficcional, levado a cabo pelo autor desde a década de 1980. O texto marca, também, um retorno do ficcionista às narrativas mais longas, depois da publicação dos contos de A máquina de ser (2006).

Em Acenos…, Noll retoma o esquema que configura a singularidade da sua prosa na ficção brasileira contemporânea: a criação de um ambiente ficcional construído muito mais por uma atenção à sonoridade e à apresentação de imagens, do que pela enunciação de episódios. O romance é, ainda, a biografia do mesmo narrador-anônimo, presente nas outras obras do autor; a história de um personagem errante que transita de um livro para outro, posto que é sempre um nômade a procura de um lugar identitário, um abrigo qualquer, um afago, ainda que provisório. Relato biográfico que, aqui, inicia-se com uma insólita luta homoerótica, ocorrida na infância do protagonista, entre ele e um amigo, num “chão frio do corredor” (p.7) de um consultório odontológico. Esse contato com o corpo do outro marca-o irreversivelmente, de tal forma que o colega se torna uma obsessão que acompanha o narrador durante toda a sua existência. Da cena inicial, a narrativa desloca-se para o tempo da vida adulta, quando o narrador já se encontra casado, com um filho adolescente, e, todavia, continua a desejar o afeto e o sexo do amigo, agora engenheiro formado. Na tentativa de superar a angústia dessa espera sistêmica pelo outro, o protagonista desloca-se pelo “incógnito da cidade” (p.29)  à procura de sexo, mesmo que não consiga ir além da efemeridade de uma ejaculação. Sua busca contínua por qualquer ser que lhe ofereça um agrado, um afago ou pelo menos um aceno afetuoso resulta de uma “fome impossível” (p.21), que ele tenta saciar por meio do sexo, seja com a esposa, com garotos de programa, com uma vizinha idosa e até mesmo com uma cabra – todos esses corpos surgem como alternativas precárias à ausência do afeto do engenheiro.

Nesse percurso dramático, a vida do protagonista converte-se numa espécie de “teatro latente” (p.19), no qual o narrador tem que fingir uma heterossexualidade inútil e ocultar seu desejo quase clandestino. Nesse sentido, é interessante observar as construções imagéticas, quase sempre binárias, que tomam conta da enunciação, a partir desse momento: a clandestinidade de uma homossexualidade reprimida é significada por meio de imagens que exploram o escuro, o noturno, o claustrofóbico sub-mundo dos dark rooms e se opõe ao claro, à “ordem diurna que então [o] oprimia” (p.16). O protagonista é, pois, um

 

[d]aqueles [homens] que na claridade do dia eram vistos como machos integrais, noivos até, acima de qualquer suspeitas. Mas nas horas submersas iam lá provar do pote ansiado. (..) Essas milícias noturnas (…) depois do serviço se metiam em buracos. Dirigiam-se a locais debaixo de pontes, ruelas úmidas sem saída, esgotos habitados por ratazanas ou homens com desejos inexprimíveis e muitos hotéis de orgias lacerantes. Aventuravam-se pelas madrugadas sempre no intuito de explorarem um o corpo do outro. (grifos meus) (NOLL, 2008, p.23, 25).

 

Essa biografia, marcada por uma contínua teatralização, é descrita por meio de uma linguagem litúrgica, típica do autor, na qual cada movimento dos personagens parece desenhar um ritual macabro, que resulta na diluição das perspectivas de gozo do protagonista. A partir desse personagem que esboça uma encenação de uma vida pacata e familiar – ao mesmo tempo em que vaga por Porto Alegre faminto, porém “[s]e fingindo de saciado” (p.21) –, J. Gilberto Noll compõe uma narrativa que desestabiliza os axiomas da representação realista; os limites entre fato e imaginação, ou entre realidade e ficção são frequentemente rasurados: “a ficção das coisas me enredava a ponto de não poder dela me desvencilhar. E o que restava do que chamavam de realidade se asilava no consulado de todas as bandeiras” (p.54).  Não por acaso, aqui, como em outros livros de Noll, para desfrutar da qualidade da prosa, o leitor tem que aceitar os jogos de um enredo conscientemente inverossímil. Auto-consciência ficcional que, para falar com Linda Hutcheon, caracteriza uma “metaficção”[1]

 

 

 

 

No espelho, você se vê como  realmente é: um ser avulso, que precisa urgentemente se ligar a outro, mesmo que esse amante tenha só a  duração exata de uma trepada.”

 

 

 

A materialidade desse discurso metaficcional pode ser observada, em Acenos…, por meio da ausência de conectividade entre um episódio e outro, isto é, nem sempre os eventos ocorrem pela relação causa-conseqüência, como se o enredo padecesse de certa crise de continuidade. Fragmentação que se verifica também no plano lingüístico: o autor dispensa o uso de conectores e, raramente, constrói orações subordinadas. Dessa sorte, temos um esquema lingüístico-literário fluido, que espelha a própria condição errante do protagonista e a precariedade dos seus efêmeros contatos sexuais.

Por sobreviver nesse regime ficcional onde os ordenadores lógicos praticamente inexistem, o narrador é amiúde surpreendido pelos acontecimentos. Quando finalmente o amigo decide assumir a sua homossexualidade, o que o credenciaria a uma relação amorosa com o protagonista, surge na cidade um anacrônico submarino alemão, por meio do qual o engenheiro irá abandoná-lo subitamente:

 

“Parei no cais, boquiaberto. O meu amigo engenheiro, a meu lado, me apresentava aquele brinquedo de tamanho natural(…) falou que seguiria viagem. Torci para que voltasse a me olhar nos olhos. Em vão. O meu amigo disse que ele continuaria no cruzeiro pelos interiores dos mares. Que não tinha nada melhor a fazer” (NOLL, 2008, p.19, 29).

 

Diante desse abandono acachapante, ao narrador só resta continuar sua peregrinação: ele, então, foge para sua fazenda, mas ali também não encontra refúgio, pois até a cabra que costumava lhe servir de parceira sexual na adolescência, agora, não lhe oferecia um afago. Num humorismo auto-depreciativo, o narrador conclui: “Em pouco tempo tinham sido duas rejeições, a do engenheiro e a da cabra” (p.31). De volta a Porto Alegre, após novas tentativas frustradas de retomar a vida em família, ele se envolve com um garoto de programa que, depois de dopá-lo o espanca até a morte. Se já tínhamos uma narrativa descaradamente descompromissada com a verossimilhança, acontece nesse momento um fenômeno que rompe de vez com a naturalidade das coisas: regressado, sabe-se lá de onde, o engenheiro reaparece justamente no cemitério onde o corpo do protagonista fora sepultado e o ressuscita – “Ainda existia alguma margem para milagres?” (p.89), pergunta o narrador incerto de sua própria ressurreição. Novamente, surpreendido pelos fatos, o narrador (ressuscitado?) sê vê, no interior do Mato Grosso, onde habita numa casa perdida no meio do nada, juntamente com o engenheiro. Ele espera, então, conseguir, depois de tanto aguardo, o afeto do amigo. Para tanto, ele tem de, nessa nova etapa, assumir um corpo feminino e atuar como uma esposa do engenheiro. O dramático é que, novamente, o narrador está sem alternativa: como não lhe permitiram nem mesmo o direito à morte, a nova vida também irá se iniciar como uma condenação: “Esqueceria-me também de meu filho, minha mulher e tudo o mais. Para essa realidade eu tinha morrido, sim. Estava condenado a viver dali para a frente no Mato Grosso. Ao lado do engenheiro” (p. 89). No entanto, embora esteja disposto a aceitar sua condição de esposa e seu corpo feminino, que começa a se formar, o protagonista se depara com mais um fenômeno insólito: ironicamente, o engenheiro “andava impotente” (p.91) e o narrador tem que atuar como o homem no sexo. Ou seja, sua identidade feminina é duplamente questionada: seja pelas memórias da primeira vida como homem, seja pelas relações sexuais noturnas com o engenheiro: “Mas quem era eu afinal? Um homem que funcionaria como esposa dentro de casa. Um cara fodão à noite, varando o engenheiro até o seu caroço.” (p.95). Para piorar, o marido abandona misteriosamente a casa para ir trabalhar sabe-se lá onde, obrigando-o a “encarar a solidão diurna da mulher” (p.93) – ausências que, com o tempo, passam a ocupar intervalos maiores, dias, semanas, meses, até. É belo o modo como o autor corporifica esse abandono, como se a carência dos personagem se diluísse pelo cenário: “A falta de pratos, talheres, mantimentos, na casa da selva, tomava dimensões diáfanas. Parecia flutuante. Era em si mesma uma existência autônoma, como suas dimensões e fronteiras invisíveis” (p.170).

O protagonista suspeita que o trabalho do engenheiro esteja relacionado ao tráfico internacional de droga, pois, subitamente, surgem guerrilheiros ao redor da casa. Numa das cenas mais angustiantes e improváveis do livro, o narrador vê seu filho adolescente sob a forma de um cachorro-do-mato, fazendo sexo oral em um dos seguranças. Visão essa que nada mais é do que uma reminiscência latente da primeira vida: “ A devoção à imagem do meu guri tinha tal potência que seu espectro poderia mesmo ter vingado aqui na floresta” (p.151).

Pouco tempo depois, o guarda-costas que ele vira com o seu filho, mostra-se um assassino: envenena o engenheiro, mata o filho (agora convertido em lobo) e  inclusive o próprio narrador. Nessa medida, as últimas páginas são tomadas por uma descrição, ao mesmo tempo, lúcida e angustiante dos últimos instantes de fôlego, como se o exercício de narrar estivesse diretamente relacionado com a continuidade do viver. Vale lembrar que não estamos diante de um Brás Cubas, isto é, de um enunciador que “do outro mundo” produz um discurso memorialístico sobre o que aconteceu; embora opte pelo pretérito do indicativo, o narrador de Noll nos fala sempre como se o enunciado estivesse acontecendo: “percebia com clareza cristalina não existir vida para além da biografia” (p.201). Ou seja: a enunciação (o relato biográfico) só acaba quando se extingue o enunciado (a vida).  

Ou, simplesmente, não acaba – uma vez que viver e morrer, na obra de João Gilberto Noll, não constituem pólos que se excluem. Isso porque o autor elabora uma trama onde é recorrente a imagética do cíclico: o engenheiro que abandona e retorna a casa e abandona de novo, a identidade que se forma e se desfaz, o corpo que é sepultado e renasce. Não por acaso, ao se dar conta da sua segunda morte, o narrador conclui: “percebi que, agora, enfim…, eu começaria a viver…” (p.206). Numa literatura inquietante e repleta de intra-textualiadades, como é a de J. G. Noll, não será de se estranhar se esse mesmo personagem renascer numa próxima narrativa.

         

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

          Hutcheon, Linda. Poética do pós-modernismo. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

          Noll, João Gilberto. Acenos e afagos. Rio de Janeiro: Record, 2008.

 

 


[1]Hutcheon, Linda (1991, p..141-62)

 

 

Essas paixões. Agosto 23, 2008

Arquivado em: Intercâmbios — estherms @ 2:55 pm
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Liv Ullman em Shame (1968)

 

 

           Existe algo de deprimente em se apaixonar por uma estrela de cinema. Talvez seja a maior afirmação de solidão possível: no final das contas, é necessário desejar o que está longe e que jamais será alcançado. É, enfim, a discreta declaração da incapacidade perante o real. Há anos me apaixonei pela Liv Ullman, mas não se trata de nada disso.

 

            Ingmar Bergman sempre guardou especial afeição pelo teatro. Antes de se enveredar para o cinema havia trabalhado em algumas companhias suecas e ao longo de toda a vida foi responsável por mais de 170 direções cênicas, especialmente dos dramas de Ibsen e Strindberg. Para mim não há discussão: Bergman é, de longe, o maior nome de toda a história cinematográfica. E seus méritos nas telas residem justamente em sua dedicação aos palcos.

 

            Quando do início da carreira bergmaniana no cinema, nos anos 40, as discussões que encaravam a nova arte visual como um aperfeiçoamento do teatro já se mostravam fora de moda. Tanto a crítica como os realizadores já haviam compreendido que os dois campos constituíam-se como domínios distintos e não-concorrentes. A uma parte do público, entretanto, a consideração do cinema como a evolução do teatro persistia. Bergman foi engenhoso o suficiente para saber jogar com essas fronteiras.

 

            O teatro, em sua generalidade[1], se constitui como o espaço da anulação da figura do espectador. A ação se desenrola em um palco a vários metros de distância. Os atores estão longe, isolados e resguardados em suas angústias. Bergman, estando no cinema, arrancou à força a privacidade do intérprete: seus close-ups são impossivelmente próximos, tomam o espectador pela mão e o colocam cara-a-cara com o ator. O diretor empreende um assalto, uma invasão da intimidade, carregando o espectador como seu maior parceiro.

 

         Foi graças ao estupro de suas lentes que conheci Liv, a dona do rosto mais devastador desse mundo. Em uma obra bergmaniana, os sorrisos e as tristezas das personagens não precisam se impor através de grandes gestos ou exageros. É tudo mínimo demais, pequeno demais. Por isso mesmo tudo dói demais. Os próprios atores bergmanianos são, em uma certa medida, intérpretes conscientes de suas atuações. Mas não se tratam de interpretações dissimuladas ou brechtianas, sim de indivíduos expostos ao extremo pelo engenho de um olhar que sabe lidar com as especificidades cinematográficas.

 

         E, um dia, enquanto via Persona (1966), me apaixonei pela Liv Ullman. Simplesmente. Não havia como não desejar aquela humanidade arrebatadora que estava tão perto, tão possível.

 

 


 

[1] Aos rígidos: não estou considerando nem o teatro de Brecht e nem o da Crueldade, de Artaud. 

 

 

 

 

 

 
 
 

 

 

O terrível monstro-piranha Agosto 19, 2008

Arquivado em: Sem pretensões — edselteles @ 12:27 am

O que escrever para começar minha parte neste blog? Minha vontade era de escrever algo bonito, profundo, inteligente, algo que realmente tocasse meu leitor, como os textos absolutamente instigantes de meus colegas. No entanto, resolvi abandonar a vontade e escrever alguma coisa sem tantas pretensões. E seguem então minhas palavras sobre um pensamento clichê que tive esses dias. E quem disse que pensamentos clichês são de todo ruins?

Lá estava eu na cozinha de minha casa. Tomando café da tarde com minha mãe. Ela, com uma simpática touca, estava pintando o cabelo (velha, coitada). Eu, de pijama (ocioso, sortudo). Bom, não importam as roupas. O que importa é que a gente tava comendo bisnaguinhas. Na verdade, na verdade, não eram bem as bisnaguinhas que importavam, mas o pacote. Tá! Não era bem o pacote, mas o prendedor que o segurava. Sabe quando você abre um pacote de algum alimento e não termina de comer, e depois fecha o pacote com um prendedor (coisa tosca, mas que todo mundo faz)? Pois é, isso mesmo, é o prendedor vermelho que fechava o pacote que importa.

O fato é que eu me lembrei de quando era criança. Era (sou) um moleque bastante metódico. Influenciado por aqueles antigos seriados japoneses de luta (tokusatsu, para os mais esclarecidos – Jaspion, Flashman, Changeman…), adorava brincar de luta com meus bonequinhos. E, sendo metódico, minhas brincadeiras eram metódicas. A cozinha da casa era a base secreta do mal; a sala, quartel general das forças do bem; o quintal era a cidade, campo onde as incríveis, decisivas e excitantes batalhas entre as forças opostas aconteciam. Ficava irritado quando meus pais ou minha irmã passavam pelos cenários ou para buscar comida na geladeira ou para guardar qualquer coisa na gaveta. Estavam desorganizando meu mundo! Aliás, meu mundo durava mais ou menos meia hora, tempo padrão de um episódio daqueles seriados. Após isso, guardava todos meus brinquedos e ficava pensando no que fazer no próximo capítulo, somente no outro dia.

“Lembra, mãe, quando eu brincava com meus bonequinhos pela casa inteira? Engraçado como fazia qualquer coisa virar um inimigo, uma personagem… olha esse prendedor. Era o terrível monstro-piranha. Hoje é só um prendedor vermelho”.

“Bom ser criança. Criança tem uma grande imaginação”, resumiu minha mãe o pensamento que eu acabara de ter.

Enfim, poderia desenvolver o tema e ficar divagando sobre se as crianças de hoje ainda criam terríveis monstros-piranha ou se somente brincam com seus Playstations, Wiis e PSPs, que criam mundos para elas. Mas ando sem imaginação. Basta, portanto, o tributo ao meu pensamento clichê.