TodoTexto

“Os livros talvez não alterem nosso sofrimento, talvez não nos protejam do mal, talvez não nos digam o que é bom ou é belo, e, certamente, não nos resguardam do fado comum da sepultura. Mas livros nos dão a possibilidade de tais coisas” – Alberto Manguel

Milton, Mito e Mário Julho 11, 2008

Arquivado em: Poesia Brasileira, literatura contemporânea — rafaelcosta @ 12:02 am

 

 

 

Alguém já disse que todo autor escreve sempre o mesmo romance durante toda a sua vida, ainda que o publique com vários títulos. A escrita teria, assim, qualquer coisa de re-escrita, de retorno aos mesmos temas. Aceitemos ou não a regra geral, o escritor amazonense Milton Hatoum não parece ser uma exceção: sua última novela, Órfãos do Eldorado (recém lançada pela Cia. Das Letras), retoma motivos ficcionais presentes em  Relato de um certo Oriente, Dois Irmãos e Cinzas do Norte: a família-impossível, a orfandade, a incomunicabilidade, a experiência ambígua da memória. 

 

Se nas três obras anteriores Milton Hatoum já explorava os aspectos culturais da região Norte, em Órfãos do Eldorado, o autor elabora um material ficcional no qual o cenário, ou melhor, a semântica simbólica desse cenário é, por assim dizer, o principal esquema de estruturação da narrativa. Hatoum consegue um feito: sua novela está longe de ser provinciana, regional-ista; ao contrário, há, na obra, um efeito que costumamos encontrar nos grandes livros: o movimento do particular pro universal. E essa transição do individual para o coletivo se realiza por meio do mito.

 

A história é narrada por Arminto Cordovil que, às margens do rio Amazonas, relata a um viajante a trajetória de sua própria vida, que começa marcada pela morte: “Até hoje recordo as palavras que me destruíram: Tua mãe te pariu e morreu”. Criado pelo pai, que parece lhe culpar pela morte da esposa, ele mais parece um bastardo do que um filho legítimo; é, pois, duplamente órfão. Quando herda as propriedades e a empresa do pai, Amando Cordovil, grande capitalista que fez fortuna durante o Ciclo da Borracha, Arminto se mostra sem capacidade e sem disposição para administrar a herança, o que o conduz do luxo à pobreza. Seu amor por uma índia-orfã, Dinaura, não só não se concretiza como o faz delirar; aos poucos, o sonho se torna uma espécie de obsessão: “passava o dia fugindo dessas coisas irreais, absurdas, mas que pareciam tão vivas que me davam medo”. Arminto, então, começa a desejar ir para outro lugar, para um Paraíso: “Vou embora para outra terra, encontrar uma cidade melhor. Para onde olho, qualquer lugar que o olhar alcança, só vejo miséria e ruínas”.

 

Interessa-me, aqui, esse desejo, a crença de que há outro lugar, uma cidade encantada, o Eldorado, no qual se pode viver sem “miséria e ruínas”. É por meio dessa esperança mítica que a novela projeta-se como narrativa universal. O Eldorado de que nos fala Hatoum é, portanto, muito mais uma sedução coletiva do que uma lenda amazônica. Não por acaso, num posfácio, um tanto quanto ambíguo e borgiano, o autor(?) comenta: “percebi que o mito do Eldorado era uma das versões ou variações possíveis da Cidade Encantada, que, na Amazônia, é referida também como uma lenda. Mitos que fazem   parte da cultura indo-européia, mas também da ameríndia e de muitas outras. Porque os mitos, assim como as culturas, viajam e estão entrelaçados. Pertencem à História e à memória coletiva” (itálico do autor; subl. meu). Essa relação do mito com a História (com H maiúsculo) sugere uma indefinição entre fato e ficção. Indefinição que poderia chamar, para falar com L. Hutcheon, de metaficção historiográfica, isto é,  uma novela  que problematiza a História e a ficção como criações humanas – não cabem, portanto, os critérios de verdadeiro ou falso. Isso significa que a lenda não é assumida como uma narrativa mentirosa; o que difere, por exemplo, os retirantes que migram em busca de outra vida, e a índia que se atira no fundo do rio, a fim de encontrar o Eldorado? Não se trata, porém, de percorrer o caminho inverso e idealizar o mito, como uma narrativa verdadeira. Juntamente com o mito, a novela apresenta o anti-mito, isto é, a ruína e o abandono: “E silêncio. Aquele lugar tão bonito, o Eldorado, era habitado pela solidão”. Num dos trechos mais belos da novela, a esperança no Paraíso é desconstruída:

“Porque, se fores embora, não vais encontrar outra cidade para viver. Mesmo se encontrares, a tua cidade vai atrás de ti. Vais perambular pelas mesmas ruas até voltares para cá. Tua vida foi desperdiçada neste canto do mundo. E agora é tarde demais, nenhum barco vai te levar para outro lugar. Não há outro lugar”.    

 

Desfazem-se, portanto, os abrigos que a narrativa mítica pode oferecer; o mito é universal, mas o sofrimento é individual – ainda que possa ocorrer em escala social. Em Crime e Castigo, um bêbado afirma que a diferença entre a pobreza e a miséria é que na primeira sempre se tem um lugar para ir, na segunda, não – e todo homem, por mais pobre que seja, sempre precisa de algum lugar para ir. A novela de Hatoum figura, nessa medida, como o relato de um miserável: quando não há para onde fugir, pode ser que já seja tarde para buscar a fuga.

 

Mário de Andrade (?)

Em determinado ponto da trama, encontramos uma referência a uma visita que um escritor paulista teria feito ao Amazonas, em 1927: “Uns anos depois, quando quatro turistas paulistas passaram por Vila Bela, ganhei um dinheirinho. Três mulheres e um homem. Escritor. (…) O escritor puxava conversa com todo mundo: índios, caboclos, artesãos e compositores de toadas.” .Referência à viagem que Mário de Andrade fez ao estado. Claro, não convém acreditar que o escritor viajante é Mário, mas a referência ali está, justamente, para lembrar ao leitor que lendas não são necessariamente não-Históricas, ou que a História é, também, ficção, como disse acima.  

 

Ainda em tempo: interessante observar – e fica a observação como uma provocação para uma pesquisa futura – que, no modernismo de Mário ainda havia um “para onde ir”. A crença no mito da nacionalidade sinalizava um Eldorado. Norte e Sudeste são para o poetas amalgamados pelo nacional

 

Descobrimento[1]

 

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves

De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
Muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu!    

 

Essa alegoria do nacional com a força de um mito acreditável também aparece plasmada no seu “O Poeta come amendoim”, por meio do olhar atemporal e imemorial da voz poética: “Estou pensando nos tempos de antes de eu nascer…”. Um Brasil que no, sonho do poeta, é quase uma Cidade Ecantada: “Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada,/porque é o meu sentimento pachorrento,/ porque é o meu jeito de ganhar dinheiro,/ de comer e de dormir”[2].



[1] ANDRADE, Mário de. Poesias completas. Belo Horizonte: Villa Rica, 1993, p.203.

 

[2] Idem, p.65

 

 

Roberto Bolaño Julho 8, 2008

Arquivado em: literatura contemporânea — Bruna Guerra @ 11:37 pm

Para ser metalingüísta
Quando esse TodoTexto foi inaugurado, fiquei matutando sobre com o que começaria o meu “bloco”. Alguns sugeriram que eu postasse um artigo que escrevi (do qual discordo um pouco atualmente), mas achei que nenhum leitor de blogs (público contemporâneo e imediatista) teria paciência de ler o equivalente a dez páginas de um trabalho acadêmico, repleto de citações e notas de rodapé. Ok. Depois de tantos rodeios, devo finalmente dizer: eu estudo a obra de Roberto Bolaño, e o artigo que citei é sobre ele.

 

Roberto Bolaño
Roberto Bolaño não dispensa apresentações. Ele não tem um nome ressoante como do nosso Machado de Assis, nem como do hermano Borges. Quando cito o nome de Roberto Bolaño quase sempre perguntam quem ele é, ou então me olham com um sorriso maroto e dizem, como que acertando-na-mosca: “Ahhh! É o Chaves!”. Roberto Bolaño, felizmente, não é Roberto Gómez Bolaños, não que eu não goste do nostálgico Chaves -de fato gosto-, mas em termos intelectuais, fico com o primeiro nome. Sem uma fortuna crítica digna de um Drummond de Andrade, sua apresentação é necessária antes que eu comece a afogar o blog com coisas sobre ele. Sucintamente: chileno de nascimento, juventude no México, fuga da prisão após o golpe militar de Pinochet, viagens pelo mundo, fim da vida na Espanha. Tudo bem descrito em seu Los Detectives Salvajes. Mas, calma… Você pode vir me dizer: romance é romance, biografia é biografia, mas…

Por mais que eu tente fugir de biografismos, “contra fatos não há argumentos”: lá está a vida de Bolaño em seu Rómulo Gallego Los Detectives Salvajes (e outras obras). Já diria a pop Análise do Discurso que as condições de produção proporcionam isso, mas bem mais que invocar Enis Orlandis, Pechêuxs,  Mainguenaus e o camarada Freud com sua psicanálise, acredito que Bolaño participe de um fenômeno literário latino-americano contemporâneo chamado hibridismo, muito bem trabalhado em um texto de de Rafael GIRALDO¹.
Eis que páro por aqui, meio abruptamente, para não esgotar os senhores nem o assunto.

E se você ficou curioso e pretende conhecer a obra de Roberto Bolaño, alguns dos seus livros já têm tradução brasileira pela Companhia das Letras.

Os Detetives Selvagens Noturno no Chile 

A Pista de Gelo Putas Assassinas

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¹) GIRALDO, Rafael E. G. Romances híbridos e crítica ficcional na narrativa contemporânea latino-americana: o caso de Roberto Bolaño. Gragoatá. Niterói, n.22, p.179-190, 1.sem.2007.

 

O poeta e a memória de seu tempo Julho 7, 2008

Arquivado em: Poesia Brasileira, crítica contemporânea — Tati Marchi @ 8:05 am

Carlos Drummond de Andrade

Buscarei neste breve ensaio tecer algumas considerações sobre uma possível chave interpretativa para parte da poesia de Drummond, na qual esta é vista como uma literatura da memória. Apesar de saber que tal tarefa pode soar como uma interpretação “paranóica”,  faço-a me sentindo respaldada pela defesa da superinterpretação feita por Jonathan Culler1, sobretudo quando o teórico afirma: “a produção de interpretações de obras literárias não deveria ser considerada como o objetivo supremo, e muito menos o único objetivo, dos estudos literários, mas, se é para os críticos gastarem seu tempo elaborando e propondo interpretações, então devem aplicar a maior pressão interpretativa possível, devem levar o seu pensamento o mais longe possível”. (Culler, 1993: 130) Com isso, quero dizer que a leitura da poesia drummondiana proposta aqui é fruto de uma impressão pessoal acerca de um aspecto de sua estética e que, portanto, se sustenta na tentativa de esclarecer as associações que podem fazer desta chave interpretativa aceitável.

Sendo assim, especularei sobre o tom, em certa medida, testemunhal presente na poesia de Drummond, focalizando os livros Sentimento do Mundo (1940), José (1945) e A Rosa do Povo (1945). A escolha destas três obras é fundamentada em três motivos principais e que se perpassam:

  1. Há neste período da obra de Drummond uma espécie de dualidade temática: ao mesmo tempo em que existe a preocupação com o social há a luta com os problemas individuais, resultando no questionamento sobre a necessidade da literatura (e da poesia) na modernidade.

  2. A temática do tempo e com ela a da função da memória na constituição humana são temas recorrentes.

  3. Tantos nos poemas de caráter mais social quanto nos voltados para o indivíduo, há um tom de denúncia contra os males que afligem o homem moderno.

Não por acaso, essas são as principais características da chamada literatura de testemunho – tida por muitos teóricos contemporâneos como representante do gênero literário por excelência do século XX. Amplas são as discussões a respeito da contribuição do trabalho com a memória para a literatura moderna. Para o desenvolvimento argumentativo do presente estudo seguirei a linha teórica que considera a memória como a musa de todas as artes: “ Para que possam criar, para que possam exercer o simples ato de pensar, todos os seres humanos necessitam de uma ferramenta ou máquina mental e essa ‘máquina’ existe nas intrincadas redes de suas próprias memórias.” (Caruthers, 2006)2 Ainda que esta afirmativa seja bastante genérica e, portanto, não esclareça nenhuma particularidade literária, ela se faz necessária, pois somente aceitando-a podemos partir para a uma investigação mais detalhada da memória em qualquer autor. Dessa forma, entendo a literatura memorialística de cunho testemunhal como aquela que se propõe a, através da utilização de uma memória coletiva e social, levantar questões ou denunciar os horrores de seu tempo dentro de um determinado contexto ideológico-histórico-cultural.

É exatamente desta forma que encaro a construção poética de Drummond no período de 1940 à 1945. Recorrendo as palavras de Afrânio Coutinho: “Sua luta com as palavras seria uma luta pela expressão, mas que fosse a expressão testemunha da dor do mundo. O mundo moderno, com o seu mecanismo, seu materialismo, sua falta de humanidade, seu desprezo pelo homem (…)” (Coutinho, 1977:10)3 Sendo assim, a literatura drummondiana se insere no campo da literatura de memória testemunhal – entendida aqui, como já dito anteriormente, como a expressão do autor diante dos fatos do mundo ao seu redor.

A preocupação em cantar o seu tempo pode ser exemplificada com um verso do poema “Mãos dadas”, do livro Sentimento do Mundo: “O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.”4 Em “Canção do Berço”, outro poema do mesmo livro, o poeta faz uma espécie de premonição de um futuro catastrófico e desumano resultado das ações do homem presente; essa premonição é destinada a uma garotinha, no sentido de alertá-la sofre a realidade triste e dura do mundo em que ela acabou de chegar. A última estrofe ilustra bem isso: “Os beijos não são importantes./ No teu tempo nem haverá beijos./ Os lábios serão metálicos,/ civil, e mais nada, será o amor/ dos indivíduos perdidos na massa/ e só uma estrela/ guardará o reflexo do mundo esvaído/ (aliás sem importância.)”

Nessa mesma perspectiva, podemos perceber o tom de denúncia no poema “Visão 1944” , que compõe o livro A Rosa do Povo, aqui o poeta inicia todas as 25 estrofes com a sentença “Meus olhos são pequenos para ver” e, então, fala de seu inconformismo diante dos desastres de seu tempo, sobretudo, a 2ª Guerra Mundial (referida também em outros poemas dessa mesma obra, como “Carta a Stalingrado” e “Telegrama de Moscou”).

Outro aspecto recorrente na poesia de Drummond, percebida nas obras de sua fase mais engajada, se refere à recorrência do tema da memória. O vasculhar das reminiscências (entendidas aqui não somente como a referência aos dados biográficos do autor, mas como as construídas a partir do ideário de uma época) pode ser lido como uma busca da reconstrução de si mesmo, é a partir das memórias que os homens constroem sua identificação particular, aquilo que distingue cada pessoa e marca sua efêmera existência na Terra. No poema “Resíduo” , de A Rosa do Povo, há um trecho que sintetiza a hipótese interpretativa apresentada acima: “Se de tudo fica um pouco,/ mas por que não ficaria/um pouco de mim? no trem/que leva ao norte, no barco,/nos anúncios de jornal,/um pouco de mim em Londres,/um pouco de mim algures?/na consoante?/no poço?”

Apesar de curtas e bastante pontuais, me parece que as considerações sobre a poesia de memória testemunhal presente na obra de Carlos Drummond de Andrade nos mostram um poeta preocupado com os acontecimentos de seu tempo e com o impacto destes para as gerações futuras. Assim, o poeta fica perplexo diante das catástrofes e misérias do mundo, mergulhando nas redes da memória para tentar entender o presente e (re)construir a si próprio e aos outros como humanos, com sentimentos e ações próprios de sua espécie, vendo, assim, uma possibilidade de restaurar a dignidade humana em meio ao turbilhão da modernidade.

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1Faço referência ao artigo “Em defesa da superinterpretação”, de Jonathan Culler. In: ECO, Umberto. Interpretação e superinterpretação.; [tradução MF]. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

2CARUTHERS, Mary. Uma arte medieval para a invenção e para a memória: a importância do lugar” In:. REMATE DE MALES – Dossiê 26.1 “Literatura como uma arte da memória”. Campinas: Unicamp: Instituto de estudos da linguagem. Publicação semestral. ISSN: 103-183x

3Carlos Drummond de Andrade; coletânea organizada por Sônia Brayner, nota preliminar de Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, INL, 1977. (Coleção Fortuna Crítica, v.1).

4Todos os poemas de Carlos Drummond de Andrade transcritos aqui foram retirados de Obra Completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro, Aguilar, 1964.(8. ed. 1992, organizada pelo próprio autor, sob o título Poesia completa e prosa.)

 

Quando saber ler é saber falar sobre livros Julho 1, 2008

Arquivado em: crítica contemporânea, literatura contemporânea — rafaelcosta @ 10:48 pm

 

Em seu Por que ler os Clássicos, Italo Calvino afirma que “os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: ‘estou relendo’… e nunca ‘estou lendo’ “. Venhamos e convenhamos, nem sempre somos honestos o suficiente para admitirmos que sequer vimos pela frente um exemplar de Finnegans Wake,  de Em busca do tempo perdido, ou dOs Lusíadas. No entanto, Joyce, Proust e Camões estão sempre por aí, numa epígrafe de um ensaio, nas conversas nos corredores da faculdade, servindo de exemplo para determinado procedimento literário… os livros que não lemos aparecem até mesmo quando nos pedem uma sugestão de leitura.

Por vezes, diante de um “e aí, o que vocês acharam do Decameron ?”, ficamos na defensiva: se algum dos interlocutores se arriscar, vamos com ele e “concordamos plenamente com suas palavras”; mas se sou eu o único – e desafortunado – entrevistado, oscilo entre a mentira-descarada “é uma obra excelente, muito bem construída”, a mentira-envergonhada “faz tanto tempo que eu li, que já não lembro muito bem” e a verdade-cabisbaixa “ainda não li”, mas enfatizo o advérbio.

Italo Calvino nos lembra também de que é quase impossível ler inocentemente uma obra clássica: antes mesmo da primeira leitura, já conhecemos um volume de informações e comentários feito a seu respeito - sabemos, sobretudo, se devemos ou não gostar dele. Não esqueço um caso de uma amiga indignada que veio me contar que seu pai, que “lia de tudo”, “estragara” o final de Grande Sertão: veredas,  contando-lhe que Diadorim era mulher e  morria no fim. Por causa dessa facilidade -estou pensando em ambientes onde sejam freqüentes práticas de letramento - de acesso a esses discursos metalingüísticos sobre os clássicos, talvez seja menos constrangedor não ter lido Hamlet, do que não ter o que falar sobre ele, ou mesmo não saber que o ceticismo de “há algo de pode no Estado da Dinamarca” foi formulado por um dos oficiais amigos do príncipe.

No entanto, é um equívoco pensar que a Metalinguagem é um discurso que tem os autores canônicos como tópica preferencial. O recente sucesso dO Código Da Vinci, seguido do aparecimento de inúmeros best-sellers que ofereciam para-interpretações sobre ele - Revelando o Código Da Vinci, Decodificando o Código Da Vinci, Quebrando o Código da Vinci, … ad infinitum -   devem querer nos dizer algumas coisas. Arrisco algumas considerações: (1) também o leitor leigo produz uma demanda pela Metalinguagem, justamente porque a Leitura - seja ela ocasional, leiga ou acadêmica - e a não-leitura de um livro compreendem o processo de falar sobre o que se leu.  (2) O fenômeno  O Código Da Vinci também foi responsável por uma busca por informações sobre ícones da alta-Cultura, como a mitologia cristã e o a própria figura de Leonardo Da Vinci. Os acadêmicos foram, então, convocados pelas editoras e pela mídia de massa para decifrar esse outro código, por serem “especialistas” na alta-Cultura.

Claro que essa busca pelos especialistas não é um fenômeno próprio do caso Dan Brown. Basta observarmos dois lançamentos do mercado editorial brasileiro. O primeiro dele, a coleção Folha Explica já está aí há algum tempo e a contínua expansão do catálogo, atesta seu sucesso. O segundo, acaba de chegar às livrarias: trata-se da coleção Por que ler, da Editora Globo, com roteiros de leitura sobre Borges, Shakespeare e Dante. Cada volume é composto por uma pequena biografia do autor, um ensaio e citações de suas obras.  Verdade seja dita, esses manuais não são novidade no mercado, é só lembrar do título do livro de Calvino, já citado aqui; além dele, os textos de Harold Bloom sobre Como e por que ler ( O Cânone Ocidental ) também têm sido bem recebido. Também não é de agora essa busca pela sabedoria dos iniciados: desde muito tempo, consultavam-se os doutores no Templo, responsáveis pela interpretação da Palavra de Deus. 

Contudo, creio que há uma diferença entre as duas coleções e os textos de Calvino, Bloom e a hermenêutica dos escribas. A diferença de que falo caracterizaria aquilo que alguns autores como Charles Jencks e Umberto Eco têm chamado de double coding, isto é, a apropriação de recursos  das culturas ex-cêntricas, da mídia de massa, para falar das simbologias da alta-Cultura. O que me parece digno de nota é que o conceito de double coding não se restringe à ficção pós-moderna. Há, aqui, um espelhamento nos procedimentos empregados pela ficçao e pela Metalinguagem contemporânea - aliás, essa semelhança entre a literatura e  crítica literária já foi apontada por L. Hutcheon em seu estudo sobre a paródia pós-moderna (Poética do pós-modernismo).  Os ”especialistas” , agora, recebem uma encomenda de uma empresa editorial para produzirem um objeto-cultural, destinado a atingir um público-alvo, não-especializado. Guardadas as devidas diferenças de veículo/público, é mais ou menos o mesmo movimento que levou a filósofa Viviane Mosé a buscar a linguagem dos recursos gráficos para falar de filosofia na TV

Isso não significa que essas coleções descomplicadoras sejam meros esquemas para resolver a vida de quem não quer ler. Ao contrário: diante da erudição despretensiosa de uma Bárbara Heliodora avoluma-se a angústia de saber que por mais que se leia, quase tudo vai ficar por ser lido.